Now Playing Tracks

Resta, acima de tudo, essa capacidade de ternura… Essa intimidade perfeita com o silêncio… Resta esse sentimento de infância subitamente desentranhado de pequenos absurdos, essa capacidade de rir à toa. Resta essa distração, essa disponibilidade, essa vagueza de quem sabe que tudo já foi como será no vir-a-ser. Resta essa faculdade incoercível de sonhar, de transfigurar a realidade, dentro dessa incapacidade de aceitá-la tal como é, (…) e essa pequenina luz indecifrável a que às vezes os poetas dão o nome de esperança. Resta esse constante esforço para caminhar dentro do labirinto, esse eterno levantar-se depois de cada queda, essa busca de equilíbrio no fio da navalha, essa terrível coragem diante do grande medo, e esse medo infantil de ter pequenas coragens.
Vinicius de Moraes      (via des-cansa)

(Fuente: c-a-n-a-r-i-o)

Junho de 2012, o dia eu não me lembro ao certo, só sei que era começo do mês, uma segunda-feira eu acho, lá pro dia seis, algo assim. Mais um encontro, o vigésimo segundo pra ser mais exato, vinte e duas noites saindo com a mesma pessoa e nem um beijo sequer ela me deu, nem um mísero beijo, consegue entender? Tudo o que eu tinha conseguido naquele tempo foi um abraço, pegar algumas vezes em sua mão e dois ou três beijos na bochecha. Ela era cheia de regras sabe? Não era como as outras garotas com que eu estava acostumado, ela era difícil, acho que essa é a palavra que a define. E ela gostava disso, gostava de bancar a durona e o que era mais incrível nisso tudo, eu gostava disso, desse negócio dela ser durona. Dava vontade de correr atrás, insistir, ligar, procurar, dava vontade de ficar perto dela toda hora. Me chama de maluco vai, pode chamar, eu te entendo. Você deve pensar ”caramba, que cara idiota.” E sou idiota mesmo, é dos idiotas que ela gosta. Reparei nisso, ela sempre ria das minhas piadas mais imbecis, daquelas que ninguém mais no mundo iria rir, sério, ela dava uma gargalhada tão boa de ouvir… era tipo minha música preferida. Ai passei a fazer mais piadas assim, passei a ser mais idiota do que o normal pra ouvir ela rindo. Tô falando sério, não ri não. E eu também não gostava de regras, mas ela tinha regras e ai eu comecei a amar regras. Ela tinha que estar pontualmente as 23:30 em casa e também tinha que pedir permissão ao pai pra sair comigo, e também tinha auqela outra regra… ”só te beijo depois que começarmos a namorar.” Tá certo, dessa última ai eu não gostava muito não, mas eu aceitava, por ela, eu aceitava. E além das regras, ela tinha uns gostos estranhos. E ela não gostava de bolo acredita? Ai eu também passei a não gostar, só comia bolo quando tinha recheio de chocolate. O que é? Ah, é difícil resistir a chocolate. E ela gostava de outra coisa, cachorros, ela não tinha um, mas gostava, eu detesto cachorros, gatos e tudo o que me dá trabalho. Mas ela me dava trabalho e eu gostava da morena baixinha e gostava mesmo viu? Gostava com vontade, com força, gostava mesmo, de coração e até de alma -alma essa que andou perdida por ai- é, eu gostava dela pra cacete. Gostava tanto que esse troço ai de gostar morreu e se transformou em amor. AMOR, dá pra acreditar? Depois de vinte e poucos anos sem nunca sentir nada além de tesão, eu tava amando. Amando a baixinha morena que não gostava de bolo, que seguia regras e amava cachorros. Olha, até deu um aperto no estômago. Aperto não, como dizem que é quando estamos apaixonados? Ah sim, borboletas, borboletas no estômago só de pensar nela. Que engraçado essa sensação de estar apaixonado, troço diferente, esquisto e gostoso de sentir. Mas vamos voltar lá pra aquele dia de Junho, foi o dia em que tomei coragem pra pedir ela em namoro. Vinte e tantos anos eu tinha na cara, aliás, eu tenho na cara e só agora pedi uma garota em namoro. Quando contei pra mamãe ela até fez reza pro santo que ela acredita lá, não sei o nome, nem adianta me perguntar, só sei que é um santo e pronto, santo é tudo igual não é? É. Mas vamos voltar lá pra Junho de novo, pedi ela em namoro do jeito que tinha que ser. Pus a melhor roupa que tinha e fui até a casa dela, pedi pra entrar e o pai dela deixou, minhas pernas tremiam e minhas mãos suavam, tinha um bolo no meu estômago. Entrei, o meu sogro -que engraçado falar assim- tava sentado vendo o jogo do São Paulo, é ele é São Paulino, ninguém merece isso quando se é Vascaíno roxo mas tudo bem, vamos lá. Então ele tava lá encarando a tv, tinha cara de mal, até fiquei com medo por um instante, fui lá e me sentei do lado dele com a cara e com a coragem. ”É… Senhor… Senhor… como é mesmo seu nome?” O barulho da tv sumiu, pronto, chegou a hora da minha morte! “Chama de Carlos garoto.” Certo, Carlos, C-a-r-l-o-s não posso me esquecer, não que isso fosse acontecer mas eu tava com uma vontade danada de chamar ele de sogro, sei lá, vai que sai no automático né? “Então, eu sou o Rafael, amigo da Geovanna, quer dizer, amigo não, eu sou, sou… um amigão dela.” Geovanna riu, riu alto pra caramba, aliás, esqueci de dizer, ela tava sentada no outro sofá me encarando todo sem jeito, nem pra me dar uma mãozinha. “Pai, ele é o garoto de quem te falei, se lembra?” Como assim, ela tinha falado de mim pro pai dela? “Ah, o que você gosta? Lembro.” Geovanna corou e riu sem graça, riso lindo, riso frouxo, riso bom de ouvir. E ficou em silêncio, ela ficou, eu fiquei, mas o pai dela não. “Olha, Rafael eu admiro sua coragem de vir aqui, mas fica meio difícil eu saber o que você quer, se não me falar.” Colé tio, eu quero namorar com a sua filha e você sabe, será que não dá pra facilitar as coisas pra mim não? “Oh sogr… quer dizer, Senhor Carlos, eu gosto da sua filha, quer dizer eu amo a sua filha. Aliás parabéns, o Senhor tem uma filha linda, perfeita eu diria. Mas como ia dizendo, eu amo sua filha, de verdade mesmo. E não me leve a mal, eu não quero mais ser só o amigo dela. Quero ser, mais do que isso.” Que merda era essa eu que eu falei? Droga, não era isso que eu tinha ensaiado no banheiro! “Mais que amigo? Quer que eu te adote pra serem irmãos? Ah Rafael, desembucha, eu ainda tô querendo ver o segundo tempo do jogo!” Certo, ele não parecia tão mal, é agora ou nunca. Respirei fundo, pensei e repensei no que diria e… ”EU QUERO NAMORAR COM A SUA FILHA, PODE?” Certo, saiu alto, quase como um grito, exagerei, tá certo, mas me entendam, é o pai da garota que tu quer pra casar, não tem como não ficar nervoso. “Pode. Era só isso? Por que não falou antes? Abestado.” Meu sogro é baiano, comentei isso? Acho que não né, pois é, ele é. Do outro lado da sala Geovanna sorriu, sorriu e veio abraçar. Me abraçou e me beijou, bem ali na frente do pai dela. Vinte e dois encontros, um mês e quatro dias e finalmente ela era minha, demorou mas valeu a pena. E tá valendo até hoje, vinte e dois meses depois, tô casando acreditam? Pois é, daqui a oito dias, oito dias pro ínicio do nosso pra sempre. Agora tô amando, sogro, cachorros, gatos e a morena baixinha.
Gustavo Carvalho (via skate-surfesexo)
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